14 mil estudantes e professores em quatro dias de amor e afeição pela literatura

Atualizado: 26 de Ago de 2018


Jornada Literária lotou o Sesc: média de três mil e quinhentas pessoas por dia (Fotos de Andressa Anholete)

Durante os quatro dias da 3ª edição da Jornada Literária do Distrito Federal, cerca de 14 mil estudantes, de três a 18 anos, da creche ao vestibular, e professores das escolas públicas passaram pelas dependências do Sesc de Ceilândia, onde fica o Teatro Sesc Newton Rossi, principal ponto do evento correalizado pelo próprio Sesc.


A garotada e os mestres conheceram e conversaram sobre livros e literatura com 24 autores infantis, juvenis e adultos, ilustradores e quadrinistas. Participaram também de oficinas, rodas de leitura e poesia e contação de histórias. Assistiram a espetáculos de música e teatro, que levaram a eles, de maneira prazeirosa, essa coisa deliciosa chamada livro.


Na semana que vem, a Jornada Literária continua, desta vez em Brazlândia, onde alunos e professores de escolas da cidade – na maioria rurais – terão acesso a autores e seus livros, numa programação que começa nesta 2ª feira, 20, às 8h e que até 6ª feira, 24, irá até 18h, sendo que na 5ª, 23, o horário será estendido até 22h, para que adultos da Educação para Jovens e Adultos, EJA, também possam participar.


Abaixo, o curador da Jornada Literária, o também escritor João Bosco Bezerra Bomfim, faz um balanço da 3ª edição do evento. “A dimensão que a Jornada Literária traz é afeição, literatura por afeição, por amor”, resume Bosco. Confira!


Bosco: "Nós não aceitamos é que a literatura continue a ser utilizada para eliminar pessoas do vestibular"

Qual o balanço da 3ª edição da Jornada Literária?


A gente vê que vem havendo um refinamento da Jornada Literária, mais do que um simples crescimento em termos quantitativos. O que a gente viu foi que o modo de participação das pessoas ganhou em qualidade. Nós estamos bem felizes com o modo com que os professores vêm assumindo o papel de mediadores de leitura. Essa atitude, pra nós, é uma questão central: se a professora consegue se posicionar nessa condição de mediadora de leitura, trazer o livro e a reflexão, tudo o mais vem por acréscimo. A Jornada Literária representa a quebra de um bocado de mitos: “Ah, brasileiro não lê...”. Qual Brasileiro não lê? O que a gente está vendo na Jornada e Jornadinha é: “Me mostre um livro e eu te mostro um leitor”.


Então os professores são igualmente participantes privilegiados da Jornada, juntamente com os estudantes?


O nosso propósito é alcançar os estudantes, mas sabemos que, sem a mediação do professor, isso não é possível. A professora ou o professor é essa pessoa poderosa que pode influenciar, tanto positiva quanto negativamente. Por isso, a maneira como a gente vem trazendo a literatura para escola é também um modo diferenciada: que é o prazer de ler, de dizer uma poesia em voz alta, de transformar um livro que o estudante leu num brinquedo, num desenho, numa maquete; e, assim, por diante.


Professoras aceitaram o convite para serem agentes mediadoras de leitura

A poesia teve presença de destaque nesta edição da Jornada...


Nós tivemos momentos assim bem especiais com poesia. Todo mundo diz assim: “poesia é uma coisa difícil, poesia os meninos não entedem...”. Entretanto, quando o Alexandre Pilati e a Vera (Lúcia de Oliveira) e o (André) Giusti estiveram por aqui, esses poetas chegaram para os participantes e disseram três coisas; e em poucos minutos, estavam todos mergulhados numa reflexão de natureza filosófica a respeito de um poema que tinha três linhas. E esse foi só um dos episódios. E outros momentos bons foram como o da Lucília (Garcez), em que as pessoas interessadas queriam saber como o vestibular, o PAS e o Enem veem literatura. E Lucília, do alto de sua experiência, veio desmistificar, que não é nada do que pregam os terroristas desses exames. E que são momentos como esse, de contato com a literatura, diretamente, sem intermediação do livor didático, que trazem nova luz aos estudantes.


Autores criticam a obrigatoriedade da leitura na escola. A Jornada vem no sentido contrário: a leitura por prazer. Como levar a leitura para a sala de aula, respeitando o currículo sem que seja uma imposição?


Essa equivoca obrigatoriedade de constar literatura nos currículos -- ou a crença de que é imperativo ler os clássicos -- gerou na indústria do livro didático; a transformação dos conteúdos literários em pílulas. Um manual escolar traz uma pílula de Guimarães Rosa, uma pílula de Machado de Assis..., quando, na verdade, cada um desses é um emplastro universal que curaria todos os males, se lido apropriadamente. Mas quando apresentado numa pílula isto é num extrato de duas páginas, sem a noção do que vem antes daquele episódio; ou do que seguirá, adiante; enfim, isso parece aborrecido, não existe possibilidade de compreensão. Então uma dimensão que a Jornada Literária traz é: "Não interessa a extensão da peça literária que você consegue trabalhar. O importante é que ela seja integral’". Se for um poema com três linhas e se houver compreensão, nós chegamos à literatura. O que a gente recomenda (aos professores)? A gente traz os álbuns ilustrados, que podem nem ter letra nenhuma, texto algum, mas eles são literatura porque eles veiculam narrativas, poesia. Mostrei o livro "Todos os meus sonhos", do Ivan Zigg. Ele tem texto, mas eu mostrei cada quadro e fomos explorando os significados, na oficina com mediadores. Supostamente é um livro para crianças; mas, então, uma professora, que é mãe de uma adolescente, de um menino de menos de dez anos -- e, auspiciosamente, esperando outro bebê -- nos revela: “Vou levar esse livro pra minha filha adolescente”. Porque trata dos sonhos e o poema Todos os meus sonhos" conclui com uma declaração de amor: ‘"m todos os meus sonhos cabe...você’". O que vemos com isso é que nenhuma obra literária pode ser trabalhada sem ser na integralidade, incluindo a multimodalidade de uso de imagens e textos. A dimensão que a Jornada Literária traz é do gostar, literatura por afeição, por amor. Aqueles que não tinham amor ainda começaram a ter. Os que já tinham, reforçaram.


E este ano teve a Jornadinha Literária, né? (evento realizado em paralelo à Jornada, para crianças de 3 a 7 anos)


A Jornadinha Literária foi a boa invenção, imaginada pela Marilda Bezerra, proponente do projeto perante o FAC e também por ela produzido. Antes, embora as crianças já fossem convidadas à Jornada, a gente precisava equilibrar entre estas e os outros públicos, isto é,, não podia ter, proporcionalmente, muito mais crianças e pouco adolescentes, ou vice-versa. Então, a Jornadinha nos levou ainda mais para dentro das instituições (ministrar oficinas de leitura em creches antes da Jornadinha). Então, nós recebemos retornos do tipo: "A gente deu a entonação que a história pedia, as vozes dos diálogos". E tudo mudou. Eu estive nessas creches, eu e a Marilda Bezerra, também produtora da Jornada Literária), e fizemos as leituras; na sequência trouxemos as crianças ao Teatro Sesc Newton Rossi. E eu os reencontro e se dirigem a mim: “Ah, eu tô com saudade de você, você precisa voltar” (João Bosco ri, satisfeito).


Jornadinha, para 3 a 7 anos: a grande "invenção"

O que dá para aprimorar para o ano que vem?


O reconhecimento e a reafirmação do mediador como poderoso. As outras dimensões e desdobramentos têm menos a ver com o domínio que temos das políticas públicas. Por exemplo, nós lidamos com recursos públicos (A Jornada Literária foi feita com verba destinada ao Fundo de Apoio à Cultura, FAC-DF), que são liberados mediante editais. Nem sempre os editais nos permitem a flexibilidade de execução entre a data da liberação do recurso e a data da consecução do projeto. E nós fazemos questão de fazer um projeto vinculado ao processo de escolarização. Eu estou cada vez mais interessado em reafirmar essa percepção, que é a seguinte: não é a cultura que se integra a escola. É a escola que está dentro da cultura. Porque a cultura é a compreensão de todas essas linguagens, todas as mídias, saberes, fazeres, artes e artesanias, incluindo essa que passa pelo livro. Eu compreendo a literatura como uma manifestação da cultura com esse "C" maiúsculo, e aí é que está a chave: ou bem a literatura é uma manifestação privilegiada da cultura; ou não é. O que nós não aceitamos é que a literatura continue a ser utilizada para eliminar pessoas do vestibular, do PAS e do Enem. Não tem nada a ver decorar Machado de Assis, não tem nada a ver ler Graciliano Ramos por obrigação. A gente está querendo mesmo é desmistificar isso com força. Então a gente quer projetos com cada vez mais previsibilidade na execução, tempo para se harmonizar com os calendários escolares. Se a tivermos a previsibilidade do recurso, a poderemos produzir -- benzóDeus -- até dez jornadas literárias por ano.

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