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Presença “italiana” na Jornada traz na bagagem prêmios e livro para lançar em Brasília

A terceira edição da Jornada Literária do Distrito Federal terá uma participação digamos “internacional”. A poeta e professora Vera Lúcia de Oliveira, paulista de Cândido Mota e criada em Assis, também em São Paulo, conversará com estudantes e professores no dia 18 de agosto no Teatro Newton Rossi, do Sesc, em Ceilândia, sobre o tema Poesia e a arte de resistir no mundo (confira aqui a programação).


Vera Lúcia mora há cerca de 25 anos na Itália, onde leciona Literatura Portuguesa e Brasileira em Perugia. Recebeu, em 2005, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A Chuva nos Ruídos (Escrituras). No ano seguinte, outro livro seu, Entre as junturas dos ossos, recebeu do Ministério da Educação o "Prêmio Literatura para Todos" e foi publicado pelo MEC em 110 mil exemplares e distribuído nas bibliotecas de todo o país. A autora acha “que nunca se ouviu falar de um livro de poemas publicado com esse número de exemplares. O fato é que ele é lido e trabalhado nas escolas e encontro textos e páginas facebook de alunos, e alguns inclusive me escrevem”, conta, gratificada pela experiência. A obra pode ser acessada neste link do Ministério da Educação http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/MEC__entre_ossos.pdf


Foi para receber este prêmio que Vera Lúcia esteve em Brasília pela primeira vez. Retornou à cidade no ano passado por causa de um convênio que a universidade onde leciona mantém com a UnB e a Federal de Goiás, e, agora em agosto, paralelamente à Jornada Literária estará no II Congresso Internacional de Línguas, Culturas e Literaturas em Diálogo.


A autora chega para a Jornada com uma expectativa que carrega da experiência de professora. “É difícil falar sobre poesia nas escolas, pelo menos na Itália é assim, os alunos associam poesia a texto chato, que serve para ler e fazer trabalho. Não vão mais a fundo, talvez por culpa também nossa, dos professores e educadores. Aparentemente é mais fácil trabalhar com a narrativa, então, um pouco por comodidade, se deixa a poesia de lado. Mas isto nos empobrece, porque a poesia é muito mais profunda, é um tipo de linguagem e de arte da palavra que escava na alma e na consciência das pessoas”, explica Vera, que mesmo assim acredita que o encontro será válido para os alunos e para ela.


Vera conta que eventos como as Jornada Literária não são muito comuns na Itália, a não ser no âmbito universitário. “Não é tão comum que escritores visitem as escolas na Itália. Muitas vezes é a escola que vai aos encontros, são os professores que se organizam e proporcionam aos alunos participação em feiras de livro, ou eventos onde estão presentes os escritores”.


No coração da boca (São Paulo, Escrituras, 2006) e A poesia é um estado de transe (São Paulo, Portal Editora, 2010) são outros dois livros de Vera Lúcia de Oliveira, que por causa do convívio com a língua de Dante Alighieri escreve tanto em português quanto em italiano. “As duas línguas são importantes, há coisas que parece que escolhem, elas mesmas, a língua, conteúdos que entram nas palavras e grudam nelas”, justifica, Vera, a produção nos dois idiomas.


Aproveitando a vinda a Brasília, lançará por aqui mais um livro: Minha língua roça o mundo, pela Editora Patuá e convida a todos os leitores da capital brasileira. Portanto, vamos aproveitar! Duas ótimas oportunidades para quem não conhece o trabalho de Vera Lúcia de Oliveira. Quem já conhece, pode comprovar a beleza do trabalho da autora, como nos dois poemas abaixo.

*

Rua de Comércio

Sou poeta da cidade magra

da cidade que não

caminha

sou dessa planicidade

sou da violência das vidas

poeta da cidade que afunda casas

e pessoas

sou da puta da cidade que só tem

superfície

amanheço todo dia nua e estreita

como uma rua de comércio

*

Andorinhas

Estou de bem com o mundo até

um tanque de guerra se cansa

da guerra até um pássaro pára

para

repousar

e depois o céu hoje é de um

azul que faz mal aos olhos

agudo que a gente fica ali

barriga pro ar

admirando as andorinhas

que volteiam

matutando no que pensam lá no alto

no que

sabem

se sabem que estou de bem com o mundo

que volteiam lá em cima também para mim