A caminhada do escritor Jéferson Assumção

Atualizado: 21 de Jul de 2018

Em entrevista ao https://comoeuescrevo.com, de José Nunes, Jéferson Assumção, um dos escritores que está na Jornada, compartilha seu método de leitor e escritor.


Jéferson Assumção afirma que um escritor é, antes de tudo, bom leitor

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Tento começar meu dia às seis, seis e meia da manhã, dependendo do que estou escrevendo e em que estágio estou. Se é na parte inicial, pesada e quase mecânica, a preguiça é grande. Se já estou engatado no texto, é o contrário. Geralmente escrevo até 9h30min, então faço o café da manhã e é quando a casa já está desperta. Nas manhãs de segunda, quarta e sexta quase nunca há necessidade de sair de casa, o que pode estender o tempo de trabalho um pouco mais. Depois deste impulso inicial pela manhã, geralmente me absorvo com outras coisas, checar e-mails, contatar pessoas, organizar reuniões relativas à minha Oficina de Escrita Criativa, aos projetos em que estou envolvido, em música, literatura, cinema, política cultural… Às tardes, tenho mais tempo para escrever. Dois dias por semana, no entanto, preparo as aulas da Oficina, que ocorrem nas noites de segunda e quartas-feiras. Geralmente intercalo, aos períodos de escrita, a leitura e os filmes, na maior parte das vezes algo que tenha a ver esteticamente com o que eu esteja trabalhando. Um filme antigo europeu, latino-americano, asiático ou africano. Raramente, assisto algo novo. Quase nunca cinema dos Estados Unidos.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Gosto de escrever tomando mate, de manhã e de tarde. Pouco consigo avançar à noite, porque estou cansado ou querendo fazer outras coisas, sair, curtir a família, tomar uma cerveja com os amigos. Quando possível, gosto de caminhar no final da tarde. Quase sempre leio caminhando, no Parque Olhos D’água. Leio caminhando desde os 17 anos. Dá pra exercitar a mente e corpo ao mesmo tempo. Mas escolho sempre um tipo de leitura que eu considero mais fácil para a caminhada, como é o caso de textos para preparar aulas. Ficção ou filosofia me absorvem muito mais do que considero adequado para ler caminhando. Em geral, nas horas em que não estou escrevendo tento fazer o máximo de coisas ao mesmo tempo. Tudo isso para poder me liberar para a pesquisa e a escrita. Quando estou metido em uma fase já avançada de um romance, eu praticamente não quero fazer as outras coisas, às vezes nem ler. E aí as horas de escrita mudam bastante, porque podem ser das duas às cinco da madrugada, retomando meio-dia ou entrando no período da noite, dependendo do ritmo doméstico e outros compromissos. Daí não fico afim nem de músicas, nem de filmes, só de escrever. Ou reescrever, que é para mim a parte mais prazerosa do processo.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Há períodos bem mais concentrados que outros, dependendo de como a ideia me absorve e como vai seu desenvolvimento. Não tenho meta diária. Quase sempre a meta é apenas tentar parar de ler e sentar para escrever. Muitas vezes, fica bem difícil achar algum sentido em estar sentado na frente de uma página de computador, em vez de estar fazendo outras coisas. Como é um trabalho muito solitário e eu gosto de gente por todos os lados, muitas vezes prefiro estar ensaiando com minha banda, a Gorda Telefunk, ou me envolvendo em processos criativos ou ações culturais mais coletivas. Escrever às vezes é uma chatice, uma trabalheira da qual se pode sair sem nada nas mãos, quando não se estragou na reescrita algo que estava melhor no dia anterior. Nesses casos, olho para trás e tudo me parece um tempo ridiculamente perdido. Quando estou assim, minha meta é atingir a quantidade menor possível de escrita, só para manter algo respirando e me liberando para viver coisas melhores. Por causa da ansiedade, sou compulsivamente produtivo. Daí sair escrevendo sem meta é o melhor possível para se ir um pouco mais longe. E não me refiro quantitativamente, em número de páginas, mas na qualidade que espero alcançar. Quando vejo, um dia de trabalho vale por seis, e isso me dá uma alegria tola, uma ilusão boa de que estou avançando, em relação ao amadurecimento da minha escrita.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Sou muito responsável com os procedimentos de planejamento e, depois que os cumpro, quase como rituais de seriedade e profissionalismo, sou completamente irresponsável com eles. Antes de começar qualquer coisa, faço um planejamento total do romance que quero escrever. Crio extensos e detalhados mapas de personagens, estruturo a história desde o storyline mais simples e objetivo, a sinopse, a sinopse expandida, o mapa completo da história, organizo durante dias, semanas, meses, tudo o que eu posso. Penso no que eu preciso pesquisar, no que eu preciso prestar atenção para escrever, faço pesquisa, vejo filmes, anoto coisas, tudo como deveria ser feito. Mas chega um momento em que isso parece ser uma forma de insegurança. O detalhista é substancialmente um inseguro. É o momento em que, não tendo mais como planejar nada, eu finalmente preciso enfrentar minha luta contra a ansiedade e a dispersão, escrevendo. Na verdade, depois de fazer todo o planejamento, quando estou efetivamente no processo de escrita muitas vezes aquilo que escrevi de pouco me vale. Ando na rua, tento anotar, mas não anoto, tento pesquisar, mas não pesquiso, tento sistematizar, mas não sistematizo, tento combater a dispersão, mas ela me chama o tempo todo pra fazer outras coisas mais interessantes. E este processo, eu percebi, é o mais produtivo, para mim. Vou avançando de fragmento em fragmento. Há 25 anos atrás, quando comecei a preparar meu primeiro livro, era tudo muito diferente para mim. Eu era muito mais jovem e por isso tinha uma confiança total no que fazia. Não precisava me preocupar com o que iria escrever, onde queria chegar, ou como chegar. Eu achava que simplesmente chegaria e assim fazia meu caminho: ao andar. Verdes anos, claro, de livre exercício do ímpeto, sem mapas, planejamentos, nada. Escrevi meus primeiros 15 livros assim. Tinha uma ideia mais ou menos geral de uma situação e a seguia até chegar no fim da história, que eu não conhecia. Foram cinco infantis, dez infanto-juvenis e meus livros de ficção para adultos, todos da mesma maneira. Mas depois, com o tempo, a segurança juvenil foi embora e eu precisei começar as coisas com uma ideia mais clara de onde queria chegar. Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído e Cabeça de mulher olhando a neve são livros bem mais cerebrais, pensados em sua estrutura. Mas o planejamento, para mim, mais que um mapa é uma direção que posso modificar. Sigo nela, mas saindo o tempo todo e às vezes abandonando-a por algo que considero melhor. Foi assim com meus últimos romances, que foram bem planejados e executados de maneira bem diferente. É como se fossem filhos planejados, como quando nos perguntam: tu planejou ou foi por acaso? Quase sempre a resposta é: planejamos um pouco, mas aí a coisa aconteceu. Então, tu não para e diz: vou fazer um livro, simplesmente, agora vou planejá-lo e depois ele vai nascer. São as duas coisas juntas. Berço de Judas, Os Beatles Negros e o que estou escrevendo atualmente, Homem-rã, me vieram assim, com planejamento, razão, mistério, prazer, espanto e bastante trabalho.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Tudo isso é um componente do meu trabalho com a escrita. Escrever sem ter chegado lá, escrever sem saber se vou chegar a algum lugar, se alguém vai ler o que escrevi, se tudo não passará de muito tempo empregado em nada. Como diz o Arthur Schopenhauer, “escrever não é bom. Bom é ter escrito”. A procrastinação é sem dúvida o maior dos desafios, porque ela tem a ver com algo muito concreto, que é o fato de que você poderia estar fazendo coisas melhores do que aquilo que está na sua frente. Sair, caminhar, conversar com as pessoas, ler algo, estar com a família. Tem sempre muitas outras coisas que nos propõem prazeres e tempos melhor vividos do que aquela escavação sem fim que você está fazendo, aquela construção kafkiana de inúmeros caminhos e nos quais mesmo que se faça o planejamento mais detalhado e demorado, acabará por fazer você se perder dentro dela. A demora em geral não me incomoda mais que a sensação de estar afundando numa substância a cada vez que se senta para escrever algo, uma substância pesada ao redor das mãos e do corpo todo, como se o mundo fosse muito mais leve que a escrita.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Reviso inúmeras vezes e esta é uma parte do trabalho que gosto bastante. Quando já senti que cheguei a alguma coisa e que agora é mexer e mexer como as doceiras mineiras fazem até que elas sentem que a pá ou a colher que estão usando já podem ser paradas. Elas chegaram no ponto do doce. Quando estou rescrevendo sinto que a qualquer momento posso chegar a este ponto e então fico mais atento, até menos ansioso e focado porque me parece que isso pode acontecer. Quando a história já parece bem estruturada, os diálogos de alguma forma me soam vivos, algum detalhe expressivo se levanta do que estou fazendo, começo a sentir que a fervura do doce vai chegar ao ponto. É uma ilusão, muitas vezes, mas a ilusão boa de que se está escrevendo algo mais consistente do que a primeira fase em que o esqueleto ainda precisa se recobrir por tantas camadas de carne, nervos, tecidos. Daí, quando, depois de muito tempo, eu praticamente já decorei o livro todo de tanto lê-lo, quando sei o que virá imediatamente após a frase que eu estou lendo, tenho enfim a sensação não das partes em que estou trabalhando, mas do todo. Aí eu sou capaz de enxergar e cortar gorduras, tirar a flacidez do tecido, como se eu estivesse chegando, de dentro para fora, na camada de linguagem que é como a pele, este órgão vibrante, por onde o texto sente, respira, alimenta e conecta tudo. Nesse momento, peço para a Cecília, minha mulher, ler o texto inteiro para nós, em voz alta. Eu escuto sua leitura como uma das coisas mais prazerosas da vida, e fico feliz se vejo que não há tropeços em obstáculos, momentos parados, pés que afundam, opacidades. Meus últimos três romances e um livro de contos foram feitos assim. Daí, quando acho que está satisfatório, envio para algumas pessoas de minha confiança. Quando tem alguma questão que possa gerar uma polêmica, ou um detalhe de elementos culturais que não domino tanto, envio para amigos específicos que possam identificar deslizes. Os Beatles Negros foi um desafio dessa ordem.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Já tentei fazer rascunhos, tenho uma mala cheia deles, mas depois não entendo minha letra ou acho apenas um tempo que eu poderia ter dedicado a escrever diretamente. Outra coisa é que gosto de partir de algo já feito. Assim, em vez de anotações, eu gosto de partir de sobras, inúmeras sobras que vou guardando de romances ou contos, às vezes contos inteiros que poderão ser um ponto de partida para um romance ou mesmo um capítulo de algo. Gosto muito dessa sensação de não estar saindo do zero.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Tenho um hábito de anotar ideias no programa de texto do celular, alguma coisa em cadernetas. Ideias para contos, situações, personagens que poderiam ser desenvolvidos. Minhas ideias vêm das leituras, dos filmes que vejo, mas principalmente da interação com outras pessoas. Conversar, para mim, é fundamental. É de onde eu tiro minhas ideias, porque falar com os outros me provoca sinapses, sínteses. Então, fico atento ao mal-entendido, a como alguém reage a algo que eu falo, uma discussão, um tema. Tenho muita dificuldade em criar do nada e muito incômodo com o vazio, com os lugares pouco habitados, principalmente. Eu preciso dos outros, porque seus gestos, suas caras, suas falas me estimulam, me fazem querer viver, pensar e escrever. O momento da escrita é solitário, o das ideias é o da interação. Eu fico neste movimento entre a pólis e o oikos, a cidade e a casa. Gosto muito de cidade, muito de multidão, me sinto confortável no meio das pessoas, numa mistura de desejo e certo tipo de medo. Quando estou longe das pessoas, eu apago um pouco, fico mais abstrato por um lado e mais nervoso e até triste por outro. As pessoas me dão vida. Gosto de ser um misturador de falas, gestos, opiniões, de um alter-outro, como diria o Ortega y Gasset. Como fui camelô por oito anos, desde os 15 aos 23, a rua e a cidade são uma espécie de lar, onde eu não sinto frio, onde estou seguro. Na rua, eu sei me mexer com mais facilidade e desenvoltura que dentro de casa, num escritório ou na universidade, lugares, para mim mais funcionais e utilitários que poéticos. Eu tento poetizar a minha casa com o que me vem da rua. É isso o que eu busco para a minha literatura, que se alimenta muito destes espíritos e corpos vivos.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

Tudo mudou. Comecei escrevendo sem nenhum projeto ou planejamento, mais como uma escrita automática e surrealista, hoje sou mais racional e tento articular estrutura e linguagem de uma maneira mais consciente. O ritmo me envolvia mais que a razão. Às vezes saíam textos vivos disso, às vezes meros exercícios que não chegavam a nada. Hoje eu tento me virar no meio desses dois polos, mas minha atual batalha é não perder o espírito anterior, para que o texto não seja apenas uma consciência triste, como geralmente a consciência costuma ser.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Eu escrevo livro por livro, preciso me apaixonar pelo projeto em que estou metido, senão a vontade vai embora. Tenho vários livros esboçados, páginas com o título e meu nome embaixo na mesma formatação dos outros, e que um dia quero escrever. Depois de Homem-rã, eu devo escrever um romance chamado Mata-cachorros, cujo personagem central está cada vez mais vivo para mim. Eu gostaria de ler Mata-cachorros.

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