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INVENTÁRIO PARTICIPATIVO DA
FESTA DO MORANGO DE BRAZLÂNDIA

O Inventário Participativo da Festa do Morango de Brazlândia (DF) é realizado pela Associação Cultural Jornada Literária do DF, por meio do Termo de Execução Cultural nº 01/2025, firmado com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). ​Sob coordenação técnica de João Bosco Bezerra Bonfim e produção executiva de Marilda Bezerra, o projeto reúne de pioneiros a recém-assentados; de produtores tradicionais aos da agroecologia — cada um a sua maneira, “plantadores de água”; de organizações civis a órgãos públicos; de descendentes de japoneses a migrantes nordestinos chegados nas três décadas mais recentes, todos acolhidos pelos tradicionais moradores da região. Essa diversidade confere legitimidade e respaldo a essa ação política pública de patrimônio cultural. Os inventários participativos são instrumentos pelos quais o Estado reconhece saberes, celebrações, modos de fazer, práticas agrícolas e formas de organização comunitária. Mesmo sendo patrimônio cultural, são distintos do que designamos como sendo “material”, como o Plano Piloto de Brasília ou os conjuntos históricos de Ouro Preto e Salvador, estes constituídos de bens “de pedra e cal”. Os inventários participativos de uma celebração como a Festa do Morango de Brasília estão no campo do imaterial, mais assemelhados às celebrações reconhecidas como o Círio de Nazaré, em Belém, e a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, em Florianópolis. Mas os inventários participativos não são, em si, registros em um dos quatro livros do patrimônio imaterial do Iphan. Os inventários estão no campo da educação patrimonial; e têm o propósito de favorecer que a própria comunidade busque identificar e valorizar as próprias referências culturais.​

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POR QUE INVENTARIAR A FESTA DO MORANGO DE BRAZLÂNDIA?

A iniciativa de realizar o Inventário nasceu da própria comunidade, especialmente da Associação Rural e Cultural Alexandre de Gusmão (ARCAG) e de outros participantes da Festa do Morango, que identificaram a necessidade de sistematizar e registrar a memória coletiva da celebração. Essa demanda encontrou amparo no Edital Iphan nº 01/2025, que incentiva ações de reconhecimento e valorização das referências culturais locais. Mais do que produzir um relatório, o inventário estimula a reflexão sobre a história da Festa, seus significados, transformações e desafios contemporâneos. Por isso, o inventário é, antes de tudo, um percurso formativo, pois promove mobilização, escuta qualificada e protagonismo social; fortalece vínculos entre gerações e amplia a capacidade da própria comunidade de gerir e salvaguardar suas referências culturais. Por tudo isso, inventariar a Festa do Morango significa consolidar sua memória, qualificar sua transmissão e reforçar seu valor como expressão viva da identidade local. Realizar esse levantamento de informações tem se baseia no fato de que as lembranças guardadas pelas pessoas tendem a se perder; mas aquelas que são compartilhadas transformam-se em memória social. Ao falar do plantio, colheita, comercialização, transformações, objetos, práticas culturais, o inventário transforma as experiências particulares ou familiares em documento e documento em instrumento de continuidade. Portanto, o inventário organiza a memória; reconhece a dimensão coletiva; favorece a visibilidade dos saberes locais e, principalmente, serve de base para a educação patrimonial a ser movida pelas organizações sociais, escolas e entidades públicas.

Em síntese, o Inventário Participativo da Festa do Morango é:

​uma política pública federal de patrimônio cultural;

uma resposta a uma demanda comunitária;

um processo coletivo de identificação de referências culturais;

um instrumento de educação patrimonial;

uma devolutiva pública à comunidade.

O Inventário afirmar que Festa do Morango não é só um evento, mas uma referência cultural do território de Brazlândia. Pode-se dizer que são raízes que a gente planta, memórias que a gente guarda, futuro que a gente faz!

CRÔNICA DE UMA FESTA ANUNCIADA

É manhã. Pouco mais de nove horas. O primeiro dia da Festa do Morango. O corpo ainda guarda o ritmo acelerado do dia útil que antecede esse fim de semana festivo, mas o entorno já pulsa. O vento corre baixo, levanta o pó fino da estrada, traz cheiro de terra seca misturado ao doce que ainda não se vê, mas já se pressente. Ao INCRA 6, a chegada se dá em subida. Um aclive curto, constante, que exige passo firme e antecipa o fôlego. Carros avançam devagar. Janelas abertas. Gente conversando alto. Alguém aponta, “é ali”. No alto, o portão. A lona branca recortando o céu. O campo aberto. A festa, enfim, à vista. Antes de entrar, o som alcança primeiro que o cheiro. O Parque de Diversões de Seu Luís desperta cedo. Ferro rangendo, motores testados, a música Für Elise – que ninguém sabe o nome, nem que é de Beethoven – repetida, dessas que grudam no ouvido: tá-rá-rá… tá-rá-rá… tá-rá-rá-rá-rá… Crianças correm, sandálias batendo no chão irregular, risadas soltas. O ar da manhã ainda está fresco, toca o braço, arrepia a pele. Ao cruzar o portão, o corpo desacelera. O espaço se abre. À direita, os dois edifícios da ARCAG desenham um L sólido, conhecido, quase um abraço. Sob a marquise, vozes se cruzam. Panelas se encontram. Tampas batem. Alguém chama pelo nome. Para um lado, as barracas da culinária japonesa começam a ganhar forma. Mesas alinhadas, facas em descanso, aventais amarrados com cuidado. O cheiro ainda é de limpeza, de pano úmido, mas já anuncia caldo quente, massa frita, doce espesso. No salão, a exposição. O coração silencioso da festa. Caixas abertas. Bandejas organizadas. Morangos escolhidos um a um, alinhados como se soubessem que ali representam algo maior. O escarlate domina. Não é um encarnado só, como nomeiam os antigos essa cor. Há o escuro quase vinho, o claro brilhante, o que puxa para o rosado. O olhar demora. As mãos quase tocam. À medida que o sol se eleva, os cheiros também ganham o ar. Primeiro, o morango. Fruta fresca, colhida há pouco, fria ainda da madrugada. Depois, o entorno se impõe. Goiabas abertas ao meio, perfume doce escapando da casca. Abacates firmes, tomates maduros, folhas verdes recém-lavadas ainda pingando água. A Feira Agrícola se revela em camadas. Morangos, sim, muitos, centenas de caixas empilhadas, formando paredes carmesins escapando da madeira. Mas também alfaces, beterrabas, cenouras, pimentões, pepinos. Cada banca é um recorte do território. O corpo caminha devagar. Esbarra. Recua. Avança. “Com licença.” “Bom dia.” “Quanto tá?” O chão irregular exige atenção. O vento passa sob a lona, levanta bandeirolas, balança flâmulas verdes e vermelhas. Chapéus protegem do sol que agora esquenta a nuca. Camisetas com algum motivo vermelho se espalham pela multidão, vestindo o morango em gente. As falas se sobrepõem. Gente que se reconhece depois de meses: “Você veio.” “E era de não vir, uai!” “Essa é boa, oxente!” Fregueses antigos apontam bancas específicas, procuram a mesma quituteira, a torta que ficou na memória. Copinhos de prova circulam. Um gole de suco gelado. Um pedaço de goiabada cascão que gruda nos dentes. Açúcar nos dedos. Guardanapo improvisado no bolso. Gerações se misturam sem aviso. Isseis, nisseis, sanseis. Mineiros, goianos. Maranhenses, piauienses, cearenses, paraibanos, baianos. Avós caminham devagar, netos puxam pela mão. Pais equilibram sacolas cheias. Vendedores chamam, sorriem, repetem a oferta dezenas de vezes. O corpo cansa, mas não sai. À tarde, o calor pesa. O suor escorre pelas costas. A sombra das barracas vira abrigo. O lanche é farto. Tortas cortadas em fatias generosas. Trufas alinhadas em bandejas. Espetinhos cobertos de chocolate, de creme, de morango esmagado na hora. O frio do sorvete contrasta com o calor do dia. A língua agradece. Quando a noite chega, a festa muda de tom. Os holofotes acendem. A luz se espalha pelo campo da ARCAG. O céu permanece aberto, azul profundo escurecendo aos poucos, nuvens altas como cenário distante. O vento volta a soprar, refresca o rosto. A música ganha mais volume. O chão vibra sob os pés. Depois das dez horas, o palco recebe o que é da preferência popular, música para cantar junto, dançar em pé, levantar poeira. O ritmo nunca é um só. Ele muda conforme o horário, o público, o calor. De caixas de som poderosíssimas, forró. Em outro momento, catira com gosto de chão goiano. Logo depois, o grave do piseiro marca o chão, faz o peito vibrar. Há também arrocha, brega, pisadinha, um sertanejo que o público acompanha em coro. Sob a lona, tudo circula. Pessoas, produtos, histórias. O trabalho do ano inteiro encontra ali o seu momento público. Nada parece pequeno. Nada sobra. Entre roça, banca e mesa, a Festa do Morango se anuncia e se cumpre. Não é preciso pressa. A festa pede presença. Caminhar. Parar. Ouvir. Sentir o cheiro, o som, o toque do vento. Ali, no meio da multidão, a alegria não se explica. Ela acontece.

por João Bosco Bezerra Bonfim

ELABORAÇÃO DO INVENTÁRIO

​Para a elaboração do Inventário foram mobilizadas pessoas protagonistas da produção agrícola da Região Administrativa de Brazlândia, em especial as organizadoras e promotoras da Festa do Morango. Para a obtenção de informações de fontes primárias, realizaram-se rodas de conversa e entrevistas. Delas participaram produtoras e produtores rurais, alguns presentes na região há 50 anos ou mais, sendo relevante destacar o protagonismo de japoneses e seus descendentes, atraídos para Brasília com a finalidade de produzir alimentos no chamado “cinturão verde”. Somam-se a eles todas e todos os demais construtores e construtoras dessa trajetória, que reúne moradores tradicionais e migrantes incorporados ao Distrito Federal nas três décadas mais recentes. O resultado desse percurso é a consolidação de um Inventário concebido como instrumento de reconhecimento e fortalecimento comunitário. Mais do que registro documental, ele se apresenta, se afirma e se confirma como sendo memória organizada da Festa, referência para estudos e ações futuras, recurso pedagógico para a educação patrimonial e subsídio à formulação de políticas públicas de salvaguarda. Como instrumento central dessa devolutiva pública, o livro Inventário Participativo da Festa do Morango de Brazlândia, com digital on line e em papel, será difundido e distribuído a pessoas e coletivos envolvidos na realização da Festa, bem como a escolas da Região Administrativa de Brazlândia, para ampliar seu alcance formativo e social.

O trabalho então:

Entrevistou produtoras e produtores, organizadoras e organizadores da Festa, mulheres da Associação Fujinkai, extensionistas rurais e representantes governamentais;

​​

Mapeou saberes agrícolas e modos de fazer vinculados à cultura do morango;

Identificou objetos, espaços, práticas e referências simbólicas associadas à celebração;

Reconstruiu a história da Festa do Morango, a partir das memórias compartilhadas;

Analisou sua evolução simbólica, social e institucional ao longo das décadas;

Sistematizou desafios contemporâneos e riscos à continuidade;

​E propôs caminhos de salvaguarda, com base no diálogo comunitário e na valorização das referências culturais locais.​

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VALIDAÇÃO DO INVENTÁRIO

Em 13 de fevereiro de 2026, na Sede da ARCAG, no Incra 6, RA de Brazlândia, foi apresentado o documento de validação do inventário. A fim de que as pessoas participantes das entrevistas e rodas de conversa pudessem colaborar com a devolutiva, foi feita uma roda de conversa específica, na qual realizou-se uma exposição com o sumário do livro; seguido de breve resumo de cada capítulo e da apresentação das respectivas seções que compõem cada um; em complemento, trechos integrais do livro foram lidos, de maneira a fazer conhecer não só o teor, mas o estilo em que as histórias estão sendo narradas, bem como as análises e sínteses propostas.

A aceitação do teor foi unânime entre os participantes, fazendo cumprir, dessa maneira, uma fase relevante do inventário participativo.

NOTÍCIAS

AGRADECIMENTOS

Este Inventário Participativo da Festa do Morango de Brazlândia se tornou possível graças à colaboração de todas as pessoas listadas como participantes das rodas de conversa e entrevistas. A elas, somos gratos. E, em especial, a José Nilton Campelo, Blaiton Carvalho da Silva, que indicaram trilhas, construíram pontes e favoreceram com mapas e vínculos o contato com organizações da sociedade civil e produtoras e produtores rurais. A Fábio Harada, Takao Akaoka, Shoji Saiki e Alice Kimura, da ARCAG, por haverem mediado contatos e conversas, favorecido o acesso a materiais, como cartazes, fotos, jornais, objetos ligados à celebração. A estes, igualmente, somos gratos.

Relação de entrevistados e participantes das rodas de conversa

  • Adeilson Carvalho de Souza

  • Adriana Rocha Barros

  • Alessandra Yumi Shibata Iha

  • Alice Yumi Kimura

  • Ana Maria Sales Piffer

  • Andrea Barbosa Costa Lopes

  • Antonio Enoide Beserra do Nascimento

  • Aurea Satomi Sone

  • Blaiton Carvalho Da Silva

  • Celma Maria de Sousa Lima Fernandes

  • Celso Yutaka Akaoka

  • Cliomarco Fernandes De Almeida

  • Eduardo Koichi Iha

  • Eduardo Piffer

  • Erika Hitomi Shibata Akaoka

  • Fabio Yukishigue Harada

  • Florinda Setsuo Sone

  • Fumitoyo Ninomiya

  • Hatuyo Kanno Takagi

  • Hideyoshi Kiyokawa

  • Ijocilane Santos de Sousa

  • Ivanilde Carvalho Sousa

  • Jenifer Goncalves Ferreira

  • Jessica Goncalves Ferreira

  • Joao Mitiyuki Fukushi

  • José Luiz Yamagata

  • José Nilton Campelo Lacerda

  • Kaoru Tanaka de Lira Ferreira

  • Katsuko Tanaka

  • Kayomi Saiki Harada

  • Kuniyoshi Takaki Yasunaga

  • Leonidio Ferreira de Souza

  • Luciana Xavier Ramos

  • Luiz José Piffer

  • Maicon Quirino da Silva

  • Marcelo Pereira

  • Marcos Vinicius de Oliveira

  • Maria Helena Batista de Oliveira

  • Marilene Mario de Souza

  • Midori Kiyokawa Kimura

  • Miria Yamagata

  • Noilde Maria de Jesus

  • Olgacy Rodrigues Lopes

  • Paulo Norio Takaki

  • Raimundo Nonato Moreira Trindade

  • Samuel Gomes Moreira

  • Shoichi Sumida

  • Shoji Saiki

  • Takao Akaoka

  • Takao Kimura

  • Takashi Hasebi

  • Takehiro Sambuichi

  • Teresa Cristina Moreira Corrêa

  • Vagno Ribeiro de Almeida

  • Waldevi Abreu Lima

  • Waldevi de Abreu Lima

  • Wanderli de Oliveira Santos

  • Wilson Nakamura

  • Yukiko Kimura Sudo

MATERIAIS PARA DOWNLOAD 

Acesse os conteúdos do projeto Inventário Participativo da Festa do Morango

Trasparência e Participação Social

20/01/2026

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